Aquarela maculada do Brasil

Na fuzilaria provocada pelas carabinas enferrujadas da direita reacionária e da esquerda repulsiva brasileira, encontro o Congresso Nacional sempre dando tiro no pé, um atrás do outro. Não obstante, alguns disparos acertam os indivíduos errados. Afinal, os inimigos do Congresso estão lá dentro, não fora. A corja, ou melhor, a trupe dos bufões está lá, não aqui. Com a infelicidade de um Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) e de dois delinquentes que são réus no processo do mensalão na Comissão de Constituição e Justiça, o Congresso é digno de pena.

Isto posto, indago-me: como ainda é possível encontrar nacionalistas neste país? Como é capaz brotar nestas terras um fruto tão podre como o nacional-socialismo? A população deveria ser, no mínimo, cética a respeito do porvir desta nação. Violência aqui é praxe, corrupção já é rotina e a irmã de Minas Gerais é a censura. Dou-lhe uma, dou-lhe duas, qual dos virtuais candidatos à presidência da República arrematará o Palácio do Planalto e colocará este país nos trilhos? Está imposta a incógnita.

Enquanto a bancada evangélica faz o bacanal no Parlamento, moradores de rua são assassinados brutalmente na capital de Goiás e jornalistas tem pena de morte executada por policiais facínoras na região do Vale do Aço, em Minas Gerais. É imperioso sublinhar, também, que em Minas não se pode criticar o governo do Estado. A censura branca fala mais alto. Calados devem ficar os jornalistas que querem ser bem sucedidos na vida profissional.

Nesta semana, participarei de debate na Paróquia São José Operário. Nesse evento, palestrarei sobre temas que dissertei no Blog da Comunicação, a saber, o fundamentalismo e o jogo de interesses que levou o deputado federal Marco Feliciano ao cargo de presidente da CDHM e a permanente ascensão e os últimos episódios do movimento neonazista brasileiro. Ademais estes tópicos, discorrerei sobre a gestão do prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB).

Devo, com toda a minha lisura, declarar que fiquei muito grato pelo convite para participar dessa discussão, dado que não sou cristão, mas agnóstico. À vista disso, acredito que a pluralidade de perspectivas é o primeiro passo no caminho de uma sociedade mais tolerante em todos os aspectos, em especial no que tange o espiritual. A palestra é a causa pela qual tenho me privado de escrever semanalmente nesta coluna, visto que preciso conceder dedicação exclusiva ao evento.

Por fim, deixo aqui o meu lamento aos que votaram, recentemente, a favor do pastor Marco Feliciano e da redução da maioridade penal nas enquetes deste blog. São insofismáveis apedeutas, fundamentalistas e intolerantes. A solução da violência é tema bem mais complexo e transcende  a simplista redução da maioridade penal. Todavia, devo ovacionar aqueles que são contra a realização da Copa do Mundo no Brasil. Para um país que se sustenta por meio de maquiagens fiscais e populismo em pronunciamentos oficiais, Copa do Mundo e Olimpíadas são decerto devaneios hiperbólicos. Estou convicto de que o papa não trará milagres na bagagem.

Incoerências em Boston

A semana passada foi um tanto agitada nos Estados Unidos. Imitador de Elvis enviou carta com ricínio para um senador e para o presidente Barack Obama, fábrica de fertilizantes no Texas explodiu e deixou 15 mortos, bombas explodiram na maratona de Boston no Patriot’s Day, que exalta a guerra de independência do país, e 41 senadores republicanos e 3 democratas obstaram a lei que aperfeiçoaria a investigação dos precedentes dos consumidores de armas.

O atentado terrorista ocorrido em Boston, uma das cidades mais ricas dos EUA, matou 3 pessoas e deixou mais de 250 feridos. Os suspeitos de executar o ataque são dois irmãos da família tchetchena Tsarnaev, Tamerlan, morto, e Dzhokhar, em estado grave em hospital de Boston. Foi o mais funesto atentado desde o célebre 11 de setembro de 2001. Diferente deste, foi perpetrado por sujeitos isolados, portanto não tramado por organizações estrangeiras ou americanas.

Com o cenário já pronto, parte da direita estadunidense encenou sua campanha contra a legalização de imigrantes, alegando que abrirá brechas para terroristas. Argumentaram, também, que armas propiciam que cidadãos se defendam desses atentados. As quimeras conspiratórias e acaloradas costumam ter voz na direita americana. O Tea Party, por exemplo, descarregou a sua munição reacionária com pressupostos de que haveria uma “Conexão Muçulmana” dos suspeitos.

O que leva, assim, alguns americanos a manifestar tal repulsa aos muçulmanos? Como os estadunidenses podem se proteger de atentados com armas? De que modo acondicionar imigrantes em estado de ilegalidade suprimi o terrorismo? À vista disso, como o Brasil irá se organizar para os grandes eventos que irá realizar? Outrossim, “por que jovens que cresceram aqui [nos EUA] e eram parte da nossa comunidade recorreram a tal violência?”, como indagou-se Obama.

Em 2006, os EUA enforcaram Saddam. Em 2011, foi a vez de Osama bin Laden, líder da Al Qaeda, ser fuzilado e ter seu corpo jogado ao mar. O ataque ao WTC e a conseguinte invasão do Iraque deixaram patente a desastrada “guerra ao terror” de Bush. Hoje, os iraquianos vivenciam frequentes atentados terroristas. Obama decerto não é Bush. Pode até ser negligente, mas é menos intervencionista. Postergou a intervenção na Líbia e olha com prudência a questão na Síria.

Foi nessa mesma época que a polícia invadiu a sede do “The Branch” no Texas, em 1993, e o extremista Mceigh matou 168 em atentado a bomba em Oklahoma, em 1995. Houve 53 ataques terroristas frustrados nos EUA desde o 11/9, sendo 43 de indivíduos internos. Parecia que o “never again” de Bush era fidedigno. A invulnerabilidade, porém, volatizou-se. A frase de Bush é disparatada, volúvel e meramente demagógica. Logo, não há como safar-se de todo terrorismo.

Não são raros os atentados em eventos esportivos. Em 1972, na Olimpíada de Munique, Israel foi alvo de ataque da organização Setembro Negro. Em 1996, nos Jogos de Atlanta, norte-americano detonou artefato que matou uma pessoa e feriu outras 111. Antonio Patriota disse que o governo brasileiro – lê-se Exército, Polícias Militar e Federal, Abin, ministérios da Justiça e da Defesa - está tomando as providências para a Copa das Confederações e do Mundo, a Jornada Mundial da Juventude e a Olimpíada.

Ao procurar por “como fazer uma bomba” no Google, encontra-se cerca de 15,2 milhões de resultados. São 1,2 bilhões quando pesquisado em inglês, com 3 vídeos do Youtube em destaque nos primeiros links da lista. Isso deixa claro que produzir bombas e matar é fácil e barato. Basta não mais que alguns pregos, uma panela de pressão e vontade para assistir vídeos e ler artigos na internet sobre como fazer uma bomba caseira.

Nada obstante, todo esse episódio do atentado suscita diversas incoerências e teorias conspiratórias. Por que ativistas tchetchenos atacariam os EUA, especialmente Boston? Qual foi a intenção da fuzilaria perpetrada pela polícia contra Dzhokhar? Por que o FBI pediu ajuda à população se os irmãos Tsarnaev já estavam sendo investigados? Para ficar em poucos exemplos, essas são questões não muito bem respondidas pelas autoridades norte-americanas.

A cólera tchetchena é de natureza separatista e sempre teve a Rússia como único alvo, não Washington ou Boston. A religião islâmica é tão só mais um instrumento de identidade. A desavença é política, não religiosa. Por sua localização estratégica entre Ásia e África e por relevância petrolífera, a área está sob domínio de Moscou há mais de 200 anos. Os irmãos Tsarnaev estudaram entre 1999 e 2001 na capital do Daguestão, exatamente no apogeu da repressão russa.

As explosões em Boston não foram engendradas por organizações como a Al Qaeda, foram amadoras. Os irmãos Tsarnaev foram “lobos solitários”. As autoridades dos EUA, porém, inflamam as minhas limitadas convicções conspiratórias, porque me parece que a polícia norte-americana tencionava, desde o início, especificar um culpado e exterminá-lo e, pronto, chegariam ao epílogo sem ter explicado bulhufas, como aconteceu com o mais velho, Tamerlan.

O mesmo aconteceu, também, com Lee Harvey Oswald, suposto facínora que matou John Kennedy, ambos mortos em 1963, e com Osama bin Laden. Até a ficção da séries CSI e Law & Order é mais lógica que a realidade dos Estados Unidos. Mas prova maior de ilogismo são os conspiracionistas reacionários americanos que disseram que o massacre de Newtown, que matou 20 crianças e 8 adultos, era um golpe do governo democrata para aprovar a lei do desarmamento.

Como se não fosse o suficiente, o fantasma do obscurantismo continua encarnando em algumas autoridades americanas. Dzhokhar foi denunciado nesta segunda pelo Departamento de Justiça dos EUA pelo uso de armas de destruição em massa (ADM) contra civis. Caso seja condenado pela Justiça federal, o tchetcheno pode receber prisão perpétua ou até a pena de morte. Indago-me: uma panela de pressão pode ser considerada uma arma de destruição em massa?

Tachar dessa forma um artefato explosivo improvisado (AEI), como fez o procurador-geral republicano, Eric Himpton Holder, é ato insensato. O conceito, a despeito de ser impreciso, é claro: ADMs são químicas, biológicas ou nucleares. O resto é tão somente arsenal comum. O procurador peca na definição de um morticínio em massa. Só há destruição “em massa” onde há o tal povaréu. A definição de ADMs está sendo empregada para fins políticos e tirânicos.

Obama está cheio de razão quando afirma que há um calhamaço de questões mal respondidas sobre Boston. Primeiro, o que levou um bom garoto, descrito como “a alma da festa”, “anjo, “doce” e “amigável” a praticar um feito de terror? Os pais de Dzhokhar asseguram que os filhos foram vítimas de “armação” por serem “muçulmanos”. Esta assertiva é legítima, dado que estamos falando sobre um país que flerta com sentimentos xenófobos a árabes e muçulmanos.

Segundo, se o FBI, que confirmou ter feito investigação a respeito dos Tsarnaev, já gozava dos dados básicos dos suspeitos, por que teve a necessidade de exibir vídeos para clamar ajuda da população? A caça aos “lobos solitários” poderia ter sido mais prudente, para quiçá detê-los com vida. Terceiro, qual a razão dos disparos contra Dzhokhar quando se refugiou num barco? O rapaz estava gravemente ferido, não há lógica para a fuzilaria cinematográfica dos policiais.

Nesse episódio, foi corrente ver jornalistas perpetrando erros sob a pressão da urgência de informações. Mas isso não justifica os deslizes do “New York Post” e da Fox News. Os comentaristas deste se apressaram a dizer que os irmãos Tsarnaev estavam comprometidos com entidades terroristas islâmicas. O tabloide e a xenofóbica rede de TV são de Rupert Murdoch, o reacionário mandachuva australiano, que ergueu um reino midiático por meio de um nacionalismo à la Hitler.

No Twitter, o “Post” divulgou que o suspeito era um saudita de 20 anos internado com queimaduras em um hospital de Boston. O tabloide assegurou, outrossim, que havia 12 mortos nas explosões de Boston, sendo que havia apenas três. Como de praxe, um saudita, tão só por sua nacionalidade e religião, estava sendo acusado de ser um terrorista. Isso é rotina nos EUA desde o 11/9. Ademais, dois passageiros foram expulsos de um voo de Boston na segunda por serem árabes.

Por fim, devo felicitar a população de Boston pela coragem e pelo enfrentamento do medo que assolou a cidade, o país e o mundo. Constatei ali um forte sentimento comunitário acompanhado da mobilização da comunidade. Espero que Dzhokhar, caso seja de fato o culpado, não seja condenado à pena de morte e tenha um julgamento honesto e equânime. Deixo aqui as minhas condolências às famílias das vítimas do atentado e à família Tsarnaev.

Neonazismo, um absurdo atroz

No dia 15 de março, estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) consumaram um ritual de passagem, o qual alcunham “trote”, para os calouros do curso de Direito. O ritual, porém, continha patentes características racistas e nazistas, visto que, em fotos publicadas em rede social, os veteranos pintaram uma aluna novata de preto, a qual denominaram “Chica da Silva”, e amarraram outro aluno a uma coluna, posando com a saudação Heil Hitler.

Gabriel Spinola, aluno que posou para a foto com o famígero bigode de Adolf Hitler pintado no rosto, está associado ao movimento neonazista White Power de Belo Horizonte. Em seu perfil na rede social Facebook, Spinola, além de afirmar ser conhecedor do idioma alemão, curte páginas como“Conservadorismo Brasil” e “Conservador de Direita”. Outrossim, revela apreciar a obra do compositor antissemita Richard Wagner e do filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

O discente Gabriel Spinola percorre o macróbio caminho do extremismo de direita. O alemão Richard Wagner, um de seus heróis, foi expressivo fomentador do ativismo racista e abriu a porta de uma campanha preservacionista, que pretendia sofrear a “nefasta influência” do judaísmo (V88). Correligionários do nacional-socialismo declaram que as composições de Wagner são “exemplos da genialidade ariana” e elucidam “o processo ritual de inicialização ao neonazismo” (V88).

Por conseguinte, um mês após o “trote” neonazista, elaborou-se debate no auditório da reitoria da UFMG sobre direitos humanos e rituais de passagem. Participaram, além de alunos da própria universidade, a vice-reitora, Rocksane de Carvalho Norton, o professor de direito Túlio Vianna, a ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário, o deputado federal Nilmário Miranda (PT-MG) e o vereador Pedro Patrus (PT-MG).

A ministra fez discurso tímido quando mencionou o movimento neonazista. Já o professor Túlio Vianna deixou evidente a sua opinião contrária a toda atitude “racista, sexista e neonazista”. Os demais palestrantes não se manifestaram de forma relevante sobre a questão. Os alunos, por sua vez, fizeram discursos acalorados e, em sua maioria, em oposição à atitude de omissão da universidade e aos dizeres da vice-reitora. O debate durou cerca de quatro horas, sem intervalos.

Como se não bastasse o ritual nazifascista, o skinhead Antônio Donato publicou, também em rede social, foto em que enforcava um toxicodependente morador de rua. Após esse episódio, não tardou para que a Polícia Civil o prendesse. No Centro de Mídia Independente, Omar Motta criou dossiê sobre o movimento White Power de skinheads em Belo Horizonte, no qual o personagem principal é o próprio neonazista Antônio Donato. O dossiê está dividido em partes 1, 2 e 3.

O neonazismo é alicerçado pelo racismo e revisionismo, este que tem por desígnio dirimir a veracidade história do Holocausto na Segunda Guerra Mundial. Seus integrantes defendem um “racismo de Estado” que deve preservar a “raça” ariana de seus inimigos, até mesmo por meios de exterminação. Para eles, o casamento inter-racial é visto como “pior que assassinato” (NA) . Hoje, há mais de 15 mil sites com essa temática, o que revela a liberdade desse tipo de expressão na rede.

O integralismo, vertente da ideologia nacional-socialista, ainda permanece vivo em grupos como a Frente Integralista Brasileira, o Movimento Integralista Linearista do Brasil e a Ação Integralista Revolucionária. Eles são herdeiros do eixo e partilham ideias como o darwinismo social e perspectivas organicistas da sociedade. Esses nacionalismos de direita defendem a violência, o xenofobismo e a elitista supressão dos antípodas de seus projetos de Estado, como os comunistas.

Teutonismo no Brasil parece um disparate, assim como o obscurantismo dos grupos aqui citados sobre a filosofia nietzschiana. Esses facínoras e delinquentes recomendam a leitura de O Anticristo sem sequer terem lido Para Além de Bem e Mal, livro no qual o autor se posiciona contra o nacionalismo e o antissemitismo, fator que o predispôs a romper com Richard Wagner. A ignorância e a intolerância imperam entre as 14 palavras e os 88 preceitos (NON). O Hitlerismo já está morto e assim deve ficar.

Violência e reforma agrária

A violência se estabeleceu no Brasil em uma forma rotineira de ajustamento nas relações e institucionalizou-se como um arquétipo idiossincrásico, dado que foi incorporada como um cânone socialmente válido de comportamento, aparecendo não só como um procedimento regular, mas também positivamente sancionado.

A violência no campo é um drama da “guerrilha” que se vive no meio rural brasileiro. Há um desacordo endêmico entre a apropriação de terras por camponeses e a conversão delas em capital. Isso posto, reforça-se a figura do proprietário da terra, secundado por “jagunços”, adotando a hostilidade para demonstrar força e fazer vencer seus desígnios.

Entre as principais razões para a violência agrária estão a concentração da terra, a grilagem desta, a expansão da fronteira agrícola e a impunidade. Essa violência certamente é seletiva, institucional, organizada e generalizada. Aos interesses ameaçados, o caminho tem sido aniquilar outrem, tentando, deste modo, desmantelar as possibilidades de oposição.

Essa selvageria não é consequência de “acasos”, “abusos” ou “falta de aptidão” por parte das forças policiais, nem episódios de crime comum. Ela tem caráter estrutural e se inscreve como uma das facetas da cultura política brasileira, visto que contratar pistoleiros para matar não é um recurso exclusivo dos grileiros e latifundiários do nosso tempo.

Nos anos 40, teve início um movimento mais expressivo de organização dos trabalhadores rurais. A polícia surgia martirizando camponeses acusados de agitação. No final dos anos 50, a discussão sobre a reforma agrária chegou ao Congresso Nacional, fazendo com que os direitos trabalhistas e o direito de se reunir em sindicatos fossem legalizados.

Em 1963, João Goulart sancionou uma lei que instaurava a carteira profissional, a regulamentação do trabalho, a observância do salário mínimo e os privilégios como descanso semanal e férias remuneradas aos trabalhadores rurais. Porém, não foi implementada devido ao golpe militar de 1964, gerando uma militarização da questão agrária.

A militarização também foi uma forma de violência. A ditadura militar fomentou a mutilação do movimento das Ligas Camponesas, extirpando não uma pessoa em particular, mas um ícone de resistência e a voz que carregava uma ótica mobilizadora, não tardando para que as estatísticas revelassem a morte e o desaparecimento de seus líderes.

Em 1984, a luta pela terra passou a ser coordenada por uma organização não sindical, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Em 1985, surgiu a União Democrática Ruralista (UDR), que pregava que “para cada terra invadida, um trabalhador morto”, mantendo-se, assim, elevado o número de contendas violentas no campo.

Em 2003, o país ovacionava uma eleição alvissareira. Desgraçadamente, o governo Lula não modificou nada meritório em relação à política agrária seguida nos dois mandatos do governo de Fernando Henrique Cardoso, os quais foram definidos pela “reforma agrária de mercado”, voltada essencialmente para os senhores da terra e do capital.

A luta é árdua e desigual. Os trabalhadores enfrentam os ruralistas, sempre muito graúdos no poder. São os continuadores da velha direita latifundiária e atroz, agora travestida de moderna e integrada às teias do agronegócio mundial. A burguesia agrária ainda gere votos, operando uma política de clientela que se apoia na troca de votos por regalias políticas.

Em suma, a política agrária do Brasil nesses últimos anos corrobora o seu paradigma consagrado: foi ineficiente para os pobres e funcional para o capital do latifúndio e, portanto, para o agronegócio. Assim é a realidade do campo. A concentração fundiária, a inércia do Poder Público e a violência qualificam a questão agrária brasileira.

Admito que ainda é preciso amplo empenho para erradicar a violência no campo no Brasil. Mas acredito, também, que só a luta será capaz de transformar os padrões vigentes de abuso dos direitos e de impunidade. A reforma agrária sobressai, uma vez mais, como alternativa de maturação da democracia na sociedade brasileira.

Economia, antônimo de Dilma Rousseff: Popularidade cega e desoneração da cesta básica

No mês passado, pesquisa realizada pelo Datafolha apontou que a presidente Dilma Rousseff tem 58% das intenções de voto, seguida da ex-senadora Marina Silva, com 16%. Em terceiro lugar, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) apresenta 10% das intenções. Em último está o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), com 6%.

De acordo com levantamento empreendido pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE), a aprovação da presidente bateu recorde, alcançando 63%. A forma de governar dilmista foi aplaudida por 79% dos entrevistados. Ademais, 61% consentiram que a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula são equivalentes.

Essa popularidade se deve, principalmente, pelos pacotes econômicos - que ganham o bolso do consumidor - lançados com muita ostentação pela presidente, a saber: a desoneração da cesta básica, a redução da conta de luz e o congelamento das tarifas de transportes públicos.

Como mais uma das inúmeras medidas imediatistas engendradas pelo governo, a determinação de desoneração da cesta básica veio como uma ferramenta para conter a inflação de alimentos. O projeto estava sendo desenvolvido para ser lançado em maio. Contudo, a inflação saiu alta em fevereiro, o que fez o governo antecipar a redução de impostos.

Em discurso de 11 minutos em cadeia nacional de rádio e televisão, Dilma Rousseff declarou que haveria uma queda de 9,25% no preço das carnes, do café, da manteiga, do óleo de cozinha e de 12,5% na pasta de dentes e nos sabonetes.

Foram convocadas, no mês passado, reuniões encabeçadas pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, com diversos empresários do setor de alimentos, tanto dos grandes supermercados quanto da indústria. O apelo do ministro era para que a redução de impostos fosse repassada ao máximo para o consumidor. Puro ilogismo de Mantega.

Na prática, a situação é bem mais complexa. Não são somente os impostos que incidem no preço do produto final, embora seja um dado importante; há também os salários, o diesel, o frete etc. Com o ambiente inflacionário vigente, a desoneração acaba sendo compensada por outros fatores. Isso posto, fica difícil ocorrer o que é esperado pela presidente.

Nunca houve uma situação em que o imposto reduzido foi repassado integralmente ao consumidor. O episódio em que houve maior repasse foi o do IPI dos automóveis, que transferiu 84% da queda dos impostos. Em contraste, o repasse em alguns produtos desonerados da linha branca foi de apenas 40% da redução.

O Bradesco acredita que 2/3 da desoneração serão transferidos para o consumidor. Os mais céticos contam com 60%, quase metade da redução. Com o objetivo de se salvaguardar, a cadeia produtiva furta parte da desoneração para recompor a margem de lucros e reduzir os prejuízos.

Além do mais, fiscalizar os preços de milhares de lojas e pequenos supermercados é tarefa inviável. Nas grandes redes isso pode até ser possível. Todavia, ainda há milhares de pequenas redes que ficam fora do monitoramento da equipe econômica de Dilma Rousseff. Afinal, não há mais fiscais do Sarney espalhadas pelo Brasil afora.

O governo está adotando a política econômica errada. A desoneração terá efeito apenas em um mês, uma vez que as pressões inflacionárias continuarão agindo durante os próximos meses. Análises econômicas reconhecem que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) será reduzido em não mais do que 0,6 ponto percentual no ano.

Em linhas gerais, a gestão econômica do governo está totalmente desacertada. Estão propondo mudanças que não chegarão efetivamente ao bolso do consumidor. Não há medidas que obriguem o repasse, que possam penalizar os empresários, afinal não estamos em época de tabelamento de preços.

Entretanto, caso queira vencer as eleições presidenciais de 2014, a economista Dilma Rousseff precisa reconsiderar a sua política econômica, abolindo a economia populista e apresentando resultados positivos, tangíveis e sinceros. 

Economia, antônimo de Dilma Rousseff: Inflação, Juros, ata do Copom, Banco Central e Ministério da Fazenda

Nós fomos surpreendidos, no final do ano passado, pelo percentual de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, que revelou um progresso da economia de 0,9% em 2012. Nesse cenário de desaceleração, acertaram aqueles que tinham as piores expectativas. Dilma Rousseff, que tanto ovacionou o PIB, teve que se saciar com o “pibinho”.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a variação de preços para as famílias com renda até 40 salários mínimos, do mês de fevereiro deste ano veio alto, melhor do que de janeiro, porém. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que mensura a alteração de preços para as famílias que recebem até 10 salários mínimos, apresenta cifras maiores em comparação ao IPCA.

A relação decerto negativa entre o INPC e o IPCA é preocupante, uma vez que indica um agigantamento progressivo dos custos para as famílias com menor renda, isto é, que são menos abastadas. Além de tudo, é relevante sublinhar que o INPC já está acima do teto da meta de inflação (6,5%).

A ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada em 14 de março, não foi tão clara. Na verdade, mais confundiu do que explicou. A ata, que deveria esclarecer sobre um possível aumento dos juros, não esclareceu. Todavia, era muito esperada, dado que o cenário de inflação tem piorado muito nas últimas semanas.

O que esse relatório deixou claro é que o Banco Central irá esperar mais um pouco para aumentar a taxa básica de juros. Por volta do parágrafo 28 da ata, o BC deixou patente que a inflação está alta, espalhada, enfrentando pressões sazonais e localizadas, resistente e apresentando uma virtual possiblidade de acomodação em um patamar mais elevado.

Ao longo do relatório, o BC declarou projeções de inflação superiores ao centro da meta (4,5%). Na verdade, a inflação já está muito acima da meta, quase atingindo o teto desta.

Todo esse cenário é agravado pela politização da economia e pela antecipação da corrida eleitoral. O fim da miséria a partir de decretos, a queda dos juros, a desoneração da cesta básica e a redução de impostos no setor de energia tornaram-se slogans de campanha, bandeiras político-partidárias. Dilma está colocando o governo a serviço de sua reeleição.

É mais que axiomático que o governo tomará medidas populares, quiçá populistas, para garantir a reeleição de Dilma Rousseff. Ela mesmo alegou que é possível fazer o diabo para se reeleger, para ganhar a eleição presidencial. Em um momento de tamanha corrida eleitoral, como o Banco Central pode ter autonomia para aumentar os juros?

A presidente continua a afirmar que este é o governo que reduziu os juros. A campanha e a politização da taxa básica de juros criou um grande problema para o BC. Há um impasse entre a entidade e a presidência. Afinal, o Banco Central está impedido de subir os juros? Sim, está. Isso porque a instituição está sendo continuamente constrangida por Dilma.

O governo transformou a derrubada de juros em êxito político, em marca política. Na ata do Copom, o BC deixou subtendida a necessidade de se aumentar os juros para controlar a inflação. A presidente não quer isso, porém. Se a entidade começar a subir os juros, ficará estável na perspectiva econômica, mas inconsistente na ótica política.

Não se doma a inflação por meio de decretos. São necessárias medidas concretas, como corte de gastos, equilíbrio fiscal e aumento de juros. Isso o governo não quer. Deixa, assim, o Banco Central, que já deveria dar prognósticos de subir os juros, pressionado, tolhido de algum modo para elevar a taxa. Isso corrobora a ideia de que o BC não tem autonomia.

O Banco Central tem demonstrado que está apreensivo com a inflação e que, em acordo com o regime de metas de inflação, criado em 1999, efetuará mudanças na política monetária na direção de aumentar a taxa básica de juros, que está, agora, em 7,25%. A entidade afirmou que a inflação apresenta “resiliência” ante as medidas setoriais do governo.

A inflação não é boa parceira quando há planos de crescimento sustentável para o país. Ela corrói a renda das famílias, reduzindo o consumo. Se o BC não coordenar e não exteriorizar que tem o poderio para refrear a inflação, esta certamente irá subir. A instituição não pode parecer estar tão acorrentada às vontades do governo.

As previsões do mercado financeiro subiram, assinalando uma inflação acima do teto da meta tanto para este ano como para o seguinte. Contudo, o BC sustenta que existem incertezas internas – ritmo do crescimento - e externas – risco de pouca atividade global - que o impossibilitam de operar no gerenciamento da taxa básica de juros.

 Ademais a questão dos juros, o governo malha uma tecla inarmônica do piano que não está dando mais resultados positivos. Esses projetos de desoneração, a despeito de serem bem-intencionados, acabam gerando endividamento. Mesmo com a administração da economia via redução de impostos, a inflação não está caindo para patamares mais amigáveis.

Fico interpelando a mim mesmo se o governo deve obstinar-se em ser otimista. Acredito que não, que o Ministério da Fazenda e o Banco Central devem ter uma palavra mais firme, sem receio de dar más notícias. As análises do MinF devem ser as mais factuais possíveis; não podem ser otimistas. Que deixem o otimismo para Dilma Rousseff.

De fato, é melhor ser cético para evitar decepções no porvir. Quando se é esperançoso em demasia, o desencanto futuro é certo. É mais satisfatório que as cifras venham melhores do que o esperado do que abaixo do que fora previsto.

Analistas defendem que a taxa básica de juros irá girar em torno de 8,25% neste ano, um ponto percentual acima do valor atual. As projeções também apontam não para preços menores, mas para uma redução da inflação acumulada no segundo semestre.

O IPCA-15, que mede a variação de preços do dia 15 do mês anterior a 15 do mês de referência, divulgado no dia 22 de março, registrou uma desaceleração da inflação de 0,68% para 0,49%. No entanto, no acumulado de 12 meses, a inflação está em 6,43%, quase no teto da meta (6,5%).

À exceção de uma leve melhora decorrente da desoneração da cesta básica, a inflação de alimentos continua resistente, sendo responsável por cerca de 70% do IPCA-15.

O IPCA-15 comprova, portanto, que a inflação de alimentos está alta, chegando a 13% no acumulado de 12 meses em março. O Banco ABC Brasil fez projeções que mostram que esse é o pior momento do ano para os alimentos. O IPCA evidenciou que, na alimentação, quase 70% dos produtos subiram de preço. Bom para quem quer perder peso.

Desta vez, o governo está calculando a desoneração do PIS e COFINS do óleo diesel e o adiamento do aumento do transporte público nas grandes metrópoles. O problema é criar uma situação artificial nos preços, porque, no fim, tudo acaba retornando, como um efeito rebote, semelhante à trajetória de um bumerangue.

O Ministério da Fazenda lançará um índice que mede o sentimento do mercado financeiro acerca da inflação, do câmbio e do PIB. Isso é uma duplicação do que já existe. Se o Banco Central já faz, semanalmente, uma pesquisa com as 100 maiores instituições do mercado financeiro, qual a logicidade disso? Ademais, isso não é o mais fundamental agora.

Além disso, o governo criou um Conselho Ministerial para determinar uma lista de produtos essenciais. Desde quando é necessário um Conselho de Ministros para isso? Esta é mais uma prova explícita de excesso de governo e de burocracia.

A presidente Dilma Rousseff afirmou, no final do mês passado, que não há cabimento em limitar o crescimento para combater a inflação, que isso é uma política arcaica. A questão deve ser examinada pelo lado oposto, porém. O país não prospera com inflação alta. O crescimento acaba sendo apequenado porque a população perde capacidade de consumo.

Essa fala de Dilma causou mal-estar no mercado financeiro em razão do sentimento de que ela está visando o crescimento do PIB em detrimento do controle da inflação. Em seguida, a presidente alegou que os seus dizeres foram manipulados. Não obstante, todos sabem que o que ela disse é próprio da máxima econômica defendida pelo governo dilmista.

Com isso, o Banco Central fica subordinado ao governo, sem função e sem autoridade alguma. Essa é a maior preocupação dos investidores, tendo em vista que eles precisam de uma economia segura e estável para projetar os seus investimentos. Além do mais, malcontente com a economia, eleitor não costuma votar em quem está na situação.

Por fim, está provado que economia é antônimo de Dilma Rousseff. Apesar de ser a boa economista que é, Dilma está lidando de forma medíocre com a economia brasileira. A presidente estropia a autonomia do Banco Central e afaga o povo com as suas medidas populistas. Retrograda é Dilma, não o método eficaz de aumento dos juros para reprimir a inflação.